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Panorama da Literatura dos EUA: Capítulo 3
O Período Romântico, Ensaístas e Poetas
O movimento romântico, que surgiu na Alemanha e logo se espalhou, chegou aos Estados Unidos por volta de 1820. O ideário romântico era permeado pela dimensão estética e espiritual da natureza e pela importância da mente e do espírito individuais. Os românticos destacavam a importância da arte da auto-expressão para o indivíduo e para a sociedade.
O desenvolvimento do eu tornou-se o tema central; a autoconsciência, o método mais importante. Se, segundo a teoria romântica, o eu e a natureza eram uma coisa só, a autoconsciência não era um caminho egoísta, sem saída, mas uma forma de conhecimento que ampliava o universo. Se o próprio eu vibrava em harmonia com toda a humanidade, então o indivíduo tinha a obrigação moral de reverter as desigualdades sociais e aliviar o sofrimento humano. A idéia do “eu”, que as gerações anteriores viam como egoísmo, foi redefinida. Surgiram novas palavras compostas com significados positivos: “auto-realização”, “auto-expressão” e “auto-suficiência”.
À medida que o eu único, subjetivo ganhava importância, verificava-se o mesmo no âmbito da psicologia. Técnicas e efeitos artísticos excepcionais foram criados para evocar estados psicológicos elevados. O “sublime” — efeito da beleza na grandiosidade (por exemplo, vista do alto da montanha) — produzia sentimentos de assombro respeitoso, reverência, imensidão e uma força além da compreensão humana.
O romantismo era afirmativo e apropriado para a maioria dos poetas e ensaístas criativos americanos. As grandes montanhas, os desertos e os trópicos dos Estados Unidos expressavam o sublime. O espírito romântico parecia especialmente apropriado para a democracia americana: ele enfatizava o individualismo, afirmava o valor da pessoa comum e buscava na imaginação inspirada seus valores éticos e estéticos.
Transcendentalismo
O movimento transcendentalista, representado pelos ensaístas Ralph Waldo Emerson e Henry David Thoreau, foi uma reação contra o racionalismo do século 18 e estava intimamente ligado ao movimento romântico. Está bastante associado à Concord, no estado de Massachusetts, cidade perto de Boston, onde viveram Emerson, Thoreau e um grupo de outros escritores.
Em geral, o transcendentalismo foi uma filosofia liberal que privilegiou a natureza em lugar da estrutura religiosa formal, a percepção individual em lugar do dogma e o instinto humano em lugar da convenção social. Os românticos transcendentalistas americanos levaram o individualismo radical ao extremo. Os escritores americanos — de então ou que vieram depois — viam-se com freqüência como exploradores solitários fora da sociedade e das convenções. O herói americano — como o capitão Ahab, de Herman Melville, ou Huck Finn, de Mark Twain — tipicamente enfrentava riscos ou mesmo certa destruição em busca da autodescoberta metafísica. Para o escritor romântico americano, nada era dado. As convenções literárias e sociais, longe de serem úteis, eram perigosas. Havia grande pressão para encontrar uma forma, voz e conteúdo literários autênticos.
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Ralph Waldo Emerson (Cortesia: Galeria Nacional de Retratos, Instituto Smithsoniano) |
Ralph Waldo Emerson (1803-1882)
Ralph Waldo Emerson, a figura eminente de sua época, tinha um sentido de missão religiosa. Embora muitos o tenham acusado de subverter o cristianismo, ele explicou que, para ele, “era necessário deixar a igreja para ser um bom pastor”. O discurso que proferiu em 1838 em sua alma mater, a Faculdade de Estudos Religiosos de Harvard, fez com que ele não fosse bem-vindo em Harvard por 30 anos. Nele, Emerson acusou a igreja de enfatizar o dogma enquanto sufocava o espírito.
Emerson é extraordinariamente consistente em seu apelo pelo nascimento do individualismo americano inspirado pela natureza. O ensaio “A Natureza” (1836), sua primeira publicação, começa assim:
Our age is retrospective. It builds the sepulchers of the fathers. It writes biographies, histories, criticism. The foregoing generations beheld God and nature face to face; we [merely] through their eyes. Why should not we also enjoy an original relation to the universe? Why should not we have a poetry of insight and not of tradition, and a religion by revelation to us, and not the history of theirs. Embosomed for a season in nature, whose floods of life stream around and through us, and invite us by the powers they supply, to action proportioned to nature, why should we grope among the dry bones of the past ...?
Much of his spiritual insight comes from his readings in Hinduism, Confucianism, and Islamic Sufism.
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Henry David Thoreau (© Arquivo Bettmann) |
Henry David Thoreau (1817-1862)
Henry David Thoreau nasceu em Concord e fez da cidade sua residência permanente. Vindo de uma família pobre como Emerson, construiu seu caminho para Harvard. A obra-prima de Thoreau, Walden ou a Vida nos Bosques (1854), é fruto de dois anos, dois meses e dois dias (de 1845 a 1847) passados em uma cabana de madeira construída por ele no Lago Walden, perto de Concord. Esse longo ensaio poético desafia o leitor a olhar para a sua vida e vivê-la de forma autêntica.
O ensaio de Thoreau “A Desobediência Civil”, com sua teoria de resistência passiva baseada na necessidade do indivíduo justo de desobedecer a leis injustas, serviu de inspiração para o movimento de independência da Índia de Mahatma Gandhi e para a luta de Martin Luther King pelos direitos civis dos negros americanos no século 20.
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Walt Whitman (Cortesia: Biblioteca do Congresso) | |
Walt Whitman (1819-1892)
Nascido em Long Island, Nova York, Walt Whitman foi carpinteiro em tempo parcial e homem do povo, cujo trabalho brilhante e inovador traduziu o espírito democrático do país. Whitman foi em grande parte autodidata; aos 11 anos abandonou a escola para trabalhar, não freqüentando o tipo de educação tradicional que fez com que a maioria dos autores americanos se tornasse respeitáveis imitadores dos ingleses. Suas Folhas de Relva (1855), que ele reescreveu e revisou por toda a vida, contém “Canção de Mim Mesmo”, o poema mais original e formidável já escrito por um americano.
A forma inovadora, sem rima e com verso livre do poema, a franca celebração da sexualidade, a sensibilidade democrática vibrante e a declaração romântica extremada que o eu do poeta era um só com o universo e o leitor alteraram para sempre o curso da poesia americana.
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Emily Dickinson (Cortesia: Harper Bros.) |
Emily Dickinson (1830-1886)
Emily Dickinson é, de certa forma, elo de ligação entre sua época e as sensibilidades literárias do século 20. Individualista radical, ela nasceu e passou sua vida em Amherst, pequeno povoado no estado de Massachusetts. Nunca se casou e levou uma vida não convencional sem grandes acontecimentos externos, mas cheia de intensidade interior. Ela amava a natureza e encontrou inspiração profunda nos pássaros, nos animais, nas plantas e nas mudanças de estação na zona rural da Nova Inglaterra. Emily Dickinson viveu a última parte da sua vida em reclusão devido a uma psique extremamente sensível e possivelmente para conseguir tempo para escrever.
O estilo conciso, normalmente imagístico da poeta é ainda mais moderno e inovador do que o de Whitman. Há ocasiões em que ela mostra uma consciência existencial terrível. Sua poesia limpa, clara e bem delineada, redescoberta nos anos 1950, traz alguns dos mais fascinantes e desafiadores poemas da literatura americana.
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