Washington − El Salvador está sendo considerado um modelo para o mundo por ter conseguido transformar uma sociedade devastada pela guerra em uma comunidade de paz e reconciliação.
Os Estados Unidos e a comunidade global congratularam a nação da América Central por fazer a difícil transição para a paz.
O porta-voz adjunto do Departamento de Estado dos EUA, Tom Casey, disse, em 16 de janeiro, que naquele mesmo dia de 1992, há exatamente 15 anos, foram assinados acordos de paz em Chapultepec, encerrando uma guerra civil de 12 anos em El Salvador. Casey chamou o movimento salvadorenho de transição para a paz de “impressionante”, e o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, em pronunciamento no dia 16 de janeiro, elogiou El Salvador como um modelo para outros países que estão saindo de situações de conflito.
Ban disse que as Nações Unidas podem tomar a experiência salvadorenha como exemplo ao procurar ajudar outros países a encontrar a paz. El Salvador, acrescentou ele, entrou para a nova Comissão de Construção da Paz da ONU, criada em outubro de 2006 para manter a paz em áreas que passaram por conflitos. Ban expressou a esperança de que El Salvador compartilhe sua “rica experiência” com outros países.
PLANEJANDO O CAMINHO DA PAZ
O castelo de Chapultepec na Cidade do México é o local onde o governo salvadorenho e a Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN), da esquerda, assinaram o acordo de paz mediado pela ONU, encerrando uma guerra civil que devastava o país desde 1980. Mais de 70 mil pessoas morreram no conflito.
Para verificar os acordos de paz, as Nações Unidas criaram em 1991 uma missão de observação, conhecida pela sigla Onusal. Com base no sucesso dessa missão, que terminou em 1995, as Nações Unidas usaram a Onusal como modelo para estabelecer a paz e a reconciliação em outros países destruídos pela guerra, tais como Guatemala, Haiti, Moçambique e Camboja.
Segundo Casey, com o apoio dos EUA e da ONU, “os insurgentes da antiga FMLN são hoje um partido político bem estabelecido; El Salvador é uma democracia livre e vibrante, e sua economia em expansão e seu comércio florescente estão melhorando o padrão de vida de todos os salvadorenhos”.
O exemplo de El Salvador, continuou Casey, “demonstra que países destruídos pela guerra podem fazer a transição para sociedades pacíficas”.
O Departamento de Estado informou em nota de referência sobre El Salvador publicada em outubro de 2006 que, durante os 12 anos de guerra civil, eram constantes as violações dos direitos humanos pelas forças de segurança do governo e pelos guerrilheiros de esquerda.
O departamento disse ainda que os acordos de paz estabeleceram uma “comissão da verdade” sob os auspícios da ONU, a qual por fim recomendou que aqueles identificados como violadores dos direitos humanos fossem afastados de todos os cargos do governo e cargos militares em El Salvador. A assembléia legislativa do país também concedeu anistia por crimes políticos cometidos durante a guerra. Além disso, os acordos de paz criaram uma comissão específica para avaliar o histórico de direitos humanos, a competência profissional e o compromisso com a democracia de membros das Forças Armadas de El Salvador.
“O MELHOR DO MULTILATERALISMO”
O ex-diplomata americano Peter Romero, que foi encarregado de negócios da Embaixada dos EUA em El Salvador durante as negociações de paz salvadorenhas, disse ao USINFO, em 19 de janeiro, que os acordos de paz e sua implementação em El Salvador representavam “o melhor do multilateralismo”.
Um grupo de quatro nações chamado “os Amigos de El Salvador” — Colômbia, Venezuela, Espanha e México — mais os Estados Unidos e as Nações Unidas trabalharam para produzir um acordo de paz abrangente e para garantir a sua implementação, afirmou Romero.
De acordo com Romero, ele foi enviado para servir como representante “não oficial” dos EUA nas negociações de paz, e os Estados Unidos exerceram um papel “discreto”, mas “claramente fundamental”, para ajudar a garantir que o governo salvadorenho e a FMLN cumprissem os compromissos assumidos nos acordos de paz. Os Estados Unidos, informou Romero, forneceram cerca de US$ 270 milhões por ano e outros incentivos mais para que El Salvador conseguisse implementar os acordos.
Romero, que atualmente dirige uma empresa de consultoria em investimentos bancários em Washington, a Experior Advisory, acredita que a formação da comissão da verdade ajudou a acabar com a guerra civil de El Salvador. Segundo ele, a comissão garantiu imunidade penal tanto para os guerrilheiros da FMLN quando para as forças do governo que cometeram abusos contra os direitos humanos durante o conflito salvadorenho. Essa imunidade, explicou Romero, “ajudou o país a superar o conflito civil e a violência e a seguir em frente”.
Romero, que em seus 24 anos de carreira diplomática também foi secretário de Estado adjunto para Assuntos do Hemisfério Ocidental do Departamento de Estado, reconhece que a comissão da verdade salvadorenha é “altamente controversa agora, à luz dos conflitos mais recentes, sobre os quais as pessoas argumentam ser mais importante procurar fazer justiça do que fazer o país avançar”.
Mas, explicou Romero a respeito de sua experiência em El Salvador, “você tem de fazer com que todas as partes aceitem” um acordo de paz e “um dos principais ingredientes” para atingir esse objetivo é “que os combatentes saibam que depois não serão condenados por abusos contra os direitos humanos”. Conceder essa anistia, concluiu Romero, não é a solução “ideal”, mas ajuda o país a avançar.